O Conto da Garrafa Torta

CHARUTO COLOR

Essa é do tempo em que ainda se amarrava cachorro com linguiça… E algum dia amarramos?

O popular Lilico, certa feira da distante década de 70, se preparava para visitar a sua adorada Rosa, com quem planejava se casar em breve. Tudo era um mar de rosas, namoro novo, esperanças de felicidade e prosperidade na futura vida à dois…

O desafio? Era dos mais complicados para qualquer jovem homem. Pois sim, a grande peleja daquele dia seria pedir a mão de sua amada ao seu pai, o nada menos famoso Alceu pai de seis filhas, conhecido por entrevistar os pretendentes a genros no sofá do seu casebre. O Velho Alceu conversava com os caboclinhos enamorados polindo a enferrujada garrucha enquanto aguardava a resposta para a já ensaiada pergunta: — Quais são as suas intenções com a minha filha? — e fez aquela casinha conhecida por meter medo nos rapazes da época. Vagabundo ali não entrava.

Lilico todavia era escolado: jovem aventureiro, de tantos namoros e tantas ilusões. Trouxe de São Paulo onde ganhava a vida como pintor uma belíssima garrafa da mais nobre cachaça para adoçar o paladar do sogro durão que sabia ele, era de longa data apreciador da bebida.

Aqueles dois até então não tinham tanto em comum. Alceu por natureza não gostava dos pretendentes de suas filhas por achar que ninguém seria bom demais para as moças. Homem da lida dura do campo, das mãos calejadas pelo cabo da enxada, queria o melhor para cada uma das suas seis princesas como qualquer bom pai sonharia. Ele bem sabia que Lilico era desses bons homens, mas seu jeito durão não abria espaço para as boas-vindas ao jovem dos cabelos cacheados.

Benedita, senhora de Alceu, servia naquele dia o almoço ao marido que tirou à mesa o chapéu e praguejou enquanto coçava as barbas brancas: — Aquele pilantra daquele tal de Lilico, se aparecer aqui, vai tomar um tiro pra aprender a “amassar barro” na minha porta. Lilico entrava pela porta da sala naquele instante quando Alceu esbugalhou os olhos assustados para ele, armando o dedo em riste para colocá-lo de volta à rua. Porém antes que este falasse qualquer coisa, o matreiro tirou da sacola a garrafa de pinga torta, que parecia amassada, moldada especialmente a sopros desconexos para homenagear o sogro, que olhou para o presente e imediatamente retrucou: — Esse é o Lilico, meu futuro genro!

Naquela tarde os dois dividiram o almoço, boas risadas e metade da garrafa de cachaça em doses homeopáticas. Eles muito falaram do futuro casamento entre Lilico e Rosa, que obviamente deu certo… Caso contrário eu não estaria aqui.

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2 comentários sobre “O Conto da Garrafa Torta

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